Na rua das Acácias, onde os dias eram cheios de brincadeiras e risos, vivia um gato muito especial chamado Gaspar. Era laranja, de pelo fofo, bigodes compridos e olhos brilhantes como bolas de berlinde. Gaspar adorava correr, saltar, jogar à bola, ao pião e aos jogos de tabuleiro com os seus amigos do bairro.
Mas havia um pequeno problema: Gaspar não sabia perder.
Sempre que o jogo não corria como ele queria, franzia o nariz, embirrava com tudo e dizia que os outros tinham feito batota. Às vezes, até virava o tabuleiro ou saía a correr, amuado, deixando todos para trás.
— “Isto não é justo!” — gritava ele, sempre que perdia.
— “Não quero brincar mais!” — dizia, com o rabo eriçado.
Os amigos tentavam explicar-lhe que perder fazia parte do jogo. Mas Gaspar não ouvia. Para ele, se não ganhasse, o jogo não tinha graça nenhuma.
Um dia, chegou à cidade um grande cartaz colorido:
“GRANDE TORNEIO DOS ANIMAIS DO BAIRRO – Jogos, corridas e prémios para todos!”
Todos os amigos de Gaspar estavam entusiasmados. Inscreveram-se em jogos de agilidade, corridas de sacos, lançamento de pinhas e até desafios de memória.
Gaspar também se inscreveu — claro! — certo de que iria vencer tudo.
O torneio começou numa manhã ensolarada. Havia balões, música, fruta fresca e uma multidão animada. Na primeira corrida, Gaspar ficou em segundo lugar, logo atrás de uma cadela castanha, de patas musculadas e sorriso simpático.
— “Olá, eu sou a Bia,” disse ela, abanando a cauda. “Boa corrida, Gaspar!”
Mas Gaspar não respondeu. Tinha o focinho franzido e os bigodes caídos.
— “Segundo lugar não é bom,” murmurou.
À medida que o torneio avançava, Bia ganhava mais provas e Gaspar ficava cada vez mais zangado. No fim do dia, durante o jogo final de equipa, Gaspar tropeçou e deixou cair a bola. O seu grupo perdeu… e ele desatou a chorar.
— “Nunca mais brinco com ninguém! Não sei porque me esforço…” — disse, correndo a esconder-se debaixo de uma árvore.
Foi aí que a Bia se aproximou.
— “Gaspar… posso sentar-me contigo?” — perguntou com gentileza.
Gaspar encolheu os ombros, sem responder.
— “Sabes… quando eu era pequena, também ficava triste quando perdia,” contou a Bia. “Mas depois percebi uma coisa importante: se só te divertes quando ganhas, então vais passar a vida a ficar chateado. Porque ninguém ganha sempre, e isso está bem assim!”
Gaspar olhou para ela com os olhos húmidos.
— “Mas eu treino tanto…”
— “E isso é ótimo!” — respondeu Bia. “Treinar é importante. Mas mais importante é divertires-te, aprenderes com os erros e saberes dar os parabéns aos outros.”
Gaspar ficou a pensar naquelas palavras.
No dia seguinte, voltou ao parque, um pouco envergonhado. Os amigos estavam a jogar à corda. Quando o viram, sorriram.
— “Queres jogar, Gaspar?” — perguntou a Constança, uma coelhinha branca.
Gaspar hesitou… e depois disse:
— “Sim! E desta vez, se perder, prometo não ficar amuado.”
Jogaram, riram e saltaram. Gaspar até perdeu algumas vezes… mas no fim estava a rir mais do que nunca.
Afinal, tinha descoberto que o mais importante não era ganhar, mas partilhar momentos felizes com os amigos.

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